quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Silêncio

O silêncio fascina-me.
Esse fascínio deve-se às inúmeras formas com a qual nos vai tocando ao longo dos dias.
Há silêncios ensurdecedores, cobardes, assustados, constrangedores, envergonhados, incómodos…
Mas também os há cúmplices, prudentes, respeitosos, sábios, apaixonados, cheios de musicalidade.
Todos fazem parte de nós, compõem o nosso dia-a-dia e, certamente, gostamos mais de uns do que de outros.
Silêncios cúmplices são os que mais me espicaçam.
Aquela sensação de partilhar com alguém um silêncio cheio de conteúdo, que dispensa qualquer tipo de palavra. Adoro.
E não falo daqueles silêncios em que a nossa cara feia dispensa explicações. Esses também existem, mas não são cúmplices, são mais “é melhor estar calada para não te mandar àquela parte…”
O que eu gosto mesmo são aqueles momentos em que, não tendo de abrir a boca, conseguimos dizer tudo à pessoa a quem permitimos compor o nosso silêncio. Em momentos assim a energia do silêncio é enorme e capaz de produzir a mais bela das sinfonias.
Não acredito que seja fácil atingir este nível de sintonia, mas tal como quase tudo na vida, é por ser difícil que dá tanto gozo.
São poucas as pessoas com quem consigo fazer do silêncio melodia, mas de cada vez que isso acontece são momentos perfeitos e, muitas vezes, seguidos de uma boa gargalhada. (Porque a bem da verdade a maior parte das vezes que usamos este “poder” de falar em silêncio é para dizer aquelas coisas que, naquele momento, não dá jeito dizer em voz alta…Vocês certamente sabem do que falo!)
Conseguir partilhar silêncios sem que tal nos incomode ou ensurdeça é para mim um sinal de amor!

O Silêncio

Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.

Eugénio de Andrade

1 comentário: